sexta-feira, 4 de junho de 2010

O outro lado de NYC

Parece Bordeaux, mas é Nova York


Os Estados Unidos produzem vinhos de qualidade fora da Califórnia — e a 200 quilômetros de Manhattan


Por Angela Pimenta 07.02.2008
Revista EXAME -


A CIDADE DE NOVA YORK É um dos maiores pontos turísticos do mundo. A imensa maioria dos 44 milhões de visitantes por ano é formada por turistas ansiosos para percorrer o roteiro básico. Ou seja, visitar o Empire State, bater perna no Central Park e conhecer as butiques do Soho. Outro grupo, menor, já cansou de fazer os passeios tradicionais e prefere ir a shows de jazz no Blue Note, comer um hambúrguer no Donovan’s Pub e assistir a jogos do New York Knicks no Madison Square Garden. Para quem faz parte desse segundo grupo, as cercanias da cidade oferecem ainda um programa pouco conhecido — a visita às vinícolas do estado de Nova York. Isso mesmo: há produção de vinho em Long Island. Banhado pelo oceano Atlântico, o lugar, que reúne cerca de 70 estabelecimentos entre vinícolas e vinherias, tem frutos do mar de alta qualidade e charmosas pousadas. Trata-se de uma inusitada atmosfera rural a apenas 200 quilômetros do mais importante centro financeiro do mundo.
Claro, a proximidade de grandes centros urbanos não significa nada em relação ao que mais importa quando se fala de vinhos — se a bebida é boa ou não. Que o digam os moradores de São Paulo, que encontram poucos motivos para fazer romarias às cidades vizinhas de Jundiaí e São Roque, tradicionais produtores de vinhos populares.
No caso de Long Island, há também a cruel comparação com os excelentes vinhos californianos, produzidos no Napa Valley. A verdade, porém, é que o vinho de Long Island vem ganhando prestígio. Segundo uma recente avaliação do crítico Eric Asimov, do New York Times, “os vinhos de Long Island merecem respeito. Os melhores são menos encorpados do que os vinhos da Califórnia, com um teor mais baixo de álcool e maior acidez”. A revista Wine Advocate, editada pelo mais influente dos críticos americanos, Robert Parker, nos últimos anos vem dando notas iguais ou superiores a 90, numa escala de 100 pontos, a dezenas de vinhos da ilha. Na avaliação da revista, entre os destaques estão o merlot da Paumanok Vineyards, uma das vinícolas mais tradicionais do lugar, e o bordeaux da Bedell Cellars, cujo dono é o multimilionário Michael Lynne, produtor executivo da trilogia de filmes O Senhor dos Anéis.


É logo ali
A MELHOR MANEIRA DE ENTENDER A geografia da região é conferir o mapa de Long Island, que acompanha o litoral dos estados de Nova York e Connecticut. Na extremidade norte, a ilha se bifurca em duas pontas. A terra dos vinhos fica no North Fork, mais bucólico e tradicional. Já o South Fork, a meia hora de carro de boa parte das vinícolas, sedia a região dos Hamptons, com as praias mais badaladas da costa leste americana e as mansões de celebridades como Robert De Niro, Donna Karan e Jerry Seinfeld. Como era de esperar, com tal vizinhança a terra dos vinhos cobra preços altos durante a alta estação, que vai do começo da primavera, em abril, até meados do outono, em outubro. Mas, durante o inverno, quem se dispõe a enfrentar os rigores climáticos para tomar vinho ao pé da lareira encontra preços menores. Enquanto pousadas de primeira linha, como a Harborfront Inn, na vila de Greenport, costumam cobrar diária de 700 dólares durante a alta estação, no inverno os preços caem para 180 dólares. Nas vinherias, o preço da degustação de vinhos não muda ao longo do ano. Em média, pagam-se 5 dólares para experimentar os tintos, brancos e rosés de cada vinícola. A forma mais prática de ir até lá é comprar um pacote turístico de um dia, saindo de Nova York de ônibus para visitar as vinícolas, com degustações e refeições já incluídas, ao preço de 150 dólares por pessoa durante todo o ano.
Como é tradição nos Estados Unidos, o aprimoramento dos vinhos de Long Island deve ser creditado à combinação do método com a teimosia. Nos anos 70, a batata e a couve-flor eram os produtos típicos do lugar e o vinho era de qualidade inferior. Levou tempo para que as vinícolas aprendessem a lidar com as suaves colinas de terreno arenoso e clima sempre úmido, além das temperaturas extremas, tanto no inverno quanto no verão. Nos anos 80, plantadores de uva pioneiros passaram a colher bons resultados ao investir em uvas das variedades típicas da região francesa de Bordeaux — a cabernet sauvignon e a merlot. Seu sucesso começou a atrair novos interessados, boa parte jovens enólogos cansados do agito de Nova York. Hoje, as vinícolas produzem 500 000 caixas de vinho e já atraem meio milhão de turistas ao ano.

Um comentário:

  1. Realmente uma surpresa saber dessas vinícolas. Valeu norinha!!!

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